quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Cruzeiro ano a ano: 1921 - Como tudo começou

A realização do sonho da colônia italiana, o Palestra Itália.


O sonho de montar um clube italiano vinha desde 1916, quando foi organizada uma equipe com jogadores de origem italiana que levava o nome de Scratch Italiano e disputou alguns amistosos beneficentes. A grande dificuldade era quanto ao idioma, vindos de várias partes da Itália, falavam diferentes dialetos, anos mais tarde a consolidação do português como idioma dos filhos dos imigrantes vinha a ser uma facilidade para realizar o sonho.



Já existia no Barro Preto o Yale Athletic Club que era formado pela classe operária, incluindo alguns italianos. Porém o clube entrou em crise em 1919, quando já não possuía um bom elenco, pois todos bons jogadores eram levados por Atlético ou América, que eram também os preferidos da LMDT (Liga Mineira de Desportes Terrestres). O Yale chegou a romper com a Liga e em 1920 já enfrentando tamanha crise técnica e administrativa o sonho italiano volta a florescer.



Alguns jogadores italianos (digo, da colônia) que jogavam no Yale reavivaram o sonho de um clube apenas da colônia, ainda tinham agora o sucesso do Palestra Itália (Palmeiras) em São Paulo como motivação. O sonho foi realizado em 2 de janeiro de 1921, depois de muitas reuniões, na Casa da Itália, com presença de mais de 100 membros da colônia italiana o clube foi fundado, usando como base o estatuto do Palestra paulista - apenas a clausula que limitava os jogadores à descendentes de italianos foi removida.



O Palestra Itália mineiro dava ao futebol belo-horizontino seu primeiro clube formado por imigrantes, já que times "estrangeiros" se faziam comum por todo o Brasil. Com a diferença de que a colônia italiana não representava uma elite como a colônia britânica, por exemplo, pelo contrário era um time do operariado da cidade. Porém recebeu apoio de ricos imigrantes, podendo assim formar uma equipe competitiva desde o início.



A fundação de um clube italiano aumentou o sentimento de pertencimento à colônia e à nacionalidade italiana, o clube passou a ser importante nas comemorações dos imigrantes, sendo mais que um time de futebol, também um ponto de encontro. Trazendo, o clube, então, identidade aos imigrantes, já tão confusos quanto as suas origens, principalmente os filhos de imigrantes que puderam estabelecer este contato com o país.



Logo no seu primeiro ano de existência o Palestra filiou-se à LMDT e brigou por uma vaga na série A, o clube contestou a formação inicial da série, pois apenas três times haviam se regularizado (Atlético, América e Yale) dentro do prazo estabelecido. O recurso foi aceito e um torneio foi elaborado para definir as quatro vagas restantes para a série A do Campeonato da Cidade. Vencendo por 3x2 o Ipanema e por 4x1 o Palmeiras, o time da colônia era classificado direto para a série A, ainda recém-nascido.



O time já havia jogado quatro vezes. O jogo de estréia foi contra um combinado do Villa Nova (Nova Lima) e do Palmeiras (Nova Lima), e terminou em 2 a 0 para o novo time. O segundo amistoso foi contra um dos dois maiores escretes da capital: o Atlético, neste jogo os italianos bateram o grande time por 3 tentos a 0, a partida servia para mostrar que o escrete italiano já nascia grande e não por menos recebeu uma medalha de ouro ao fim da partida, sua primeira medalha.



Os jogos seguintes foram os já citados pelas eliminatórias para o Campeonato da Cidade (Campeonato Citadino de Belo Horizonte). Depois voltou a enfrentar o Atlético (já pelo campeonato) e perdeu por 2x1, no total durante o ano venceu 8 jogos, empatou 3 e perdeu 6. Mas deu trabalho ao Atlético e ao América, arrancando bons placares, mas não conseguiu vencer o segundo que foi o campeão daquele ano.



O ano terminou com um empate sem gols contra o Yale, no Prado, em 5 de novembro de 1921. Mas o time já se mostrava forte, embora não tivesse logrado bons resultados pelo Campeonato da Cidade estava bem para duas Taças paralelas a Taça Cruz Vermelha e a Taça Nova Lima. Na época os amistosos eram às vezes mais disputados que os campeonatos oficiais, por variados motivos, embora o oficial continuasse sendo o mais importante. Alguns times vendo que não teriam chances nos grandes campeonatos disputavam os pequenos com toda a garra que tinham.



O Palestra foi e continua sendo símbolo de organização e união da colônia italiana, o Palestra, hoje Cruzeiro, é resultado de muitas experiências vividas pelos primeiros italianos que chegaram à capital mineira em busca de trabalho, depois da devastação da Itália na Primeira Guerra.

Estádios celestes: Prado Mineiro

Depois de fundado, em 1921, o Palestra Itália iniciou seus treinos no campo do Yale e no estádio Prado Mineiro, da Federação Mineira – onde mandava seus jogos. O jogo de estréia foi um amistoso contra um combinado do Villa Nova com o Palmeiras de Nova Lima que o time da colônia italiana venceu por 2x0 com gols de Nani. 

Palestra 2 x 0 Combinado Villa Nova/Palmeiras de Nova Lima 

Estádio: Prado Mineiro (Belo Horizonte – MG) 
Motivo: amistoso 
Data: 03 de Abril de 1921 
Árbitro: Hermeto Júnior (América FC) 
Gols: Nani, aos 16′/1T e aos 7′/2T 
Palestra: Nullo, Polenta, Ciccio, Quiquino, Américo, Bassi, Lino, Spartaco, Nani, Henriqueto, Armandinho. 
Villa Nova/Palmeiras: Ferreira, Marcondes, Ruanico, Cristovão, Baiano, Oscar, Raimundo, Gentil, Badú, Damaso, Juá 


O jogo seguinte foi contra o Atlético e terminou em mais uma vitória. Palestra 3 x 0 Atlético. 

Palestra 3 x 0 Atlético - MG 

Estádio: Prado Mineiro (Belo Horizonte-MG) 
Motivo: amistoso 
Data: 17 de Abril de 1921 
Árbitro: Aleixanor Pereira (América FC) 
Gols: Atílio 2; Atílio 31; Nani 28 do 2o 
Palestra: Scarpelli, Polenta, Ciccio, Quiquino, Américo, Kalin, Lino, Spartaco, Nani, Henriqueto, Atílio. 
Atlético: Walter, Furtado, Alvim, Fernando, Eduardo, Coutinho, Hernani, Zica, Amaral, Minotti, Márcio. 

Vários outros amistosos e alguns campeonatos, como o Campeonato Belo Horizonte, foram disputados no estádio Prado Mineiro até 1922. Naquele ano o Palestra adquiriu um terreno no Barro Preto para a construção de seu estádio. Foi o único clube da capital não agraciado pelos poderes públicos – que tinham cedido terreno ao América, ao Atlético e ao Sete.

*Texto originalmente postado no Blog do Cruzeirense. Revisado e adaptado.

Estádios Celestes: Barro Preto




Antes mesmo de ficar pronto, o estádio recebeu algumas partidas pelo Campeonato Mineiro como solicitado pela FMF ao clube. Sendo o primeiro jogo em 10 de junho de 1923 e terminando em um empate de 2x2 entre Atlético e Luzitano. O Palestra estreou o estádio no dia 1º de julho com uma goleada de 6x2 sobre o Palmeiras de Santa Efigênia. 

A inauguração oficial foi em setembro, coincidindo com as festas da colônia italiana, em comemoração da unificação da Itália. O jogo inaugural foi contra o Flamengo e terminou em 3x3. A data também foi aproveitada para entregar medalhas aos jogadores (da colônia italiana) campeões com a seleção brasileira da Sul-americana de 1922: Heitor e Bianco (do Palestra Itália paulista) e Friedenreich, do Paulistano. 

“Os jogadores de descendência italiana de maior destaque no futebol paulista, Bianco, Gasparini, Fabi, Loschiavo, Severino e Heitor, que eram sócios honorários do Cruzeiro também foram convidados e marcaram presença na festa de inauguração do estádio.” 


PALESTRA 3 x 3 FLAMENGO (RJ)

Motivo: amistoso
Data: 23/09/1923
Estádio: Barro Preto (Belo Horizonte-MG)
Público: 4.000 (em média)
Árbitro: Henrique Vignal (RJ)
Gols: Ninão (2 gols); Heitor; Benevenuto; Agenor; Mário
Cruzeiro: Cicarelli, Ciccio, Gasparini, Cicarellinho, Severino, Quiquino, Piorra, Nani, Heitor, Ninão, Armandinho
Flamengo: Amado, Pennaforte, Almeida Netto, Durval, Seabra, Dino, Mário, Barbosa Lima, Orestes, Benevenuto, Agenor 

O estádio marcou bastante a história do clube. Foi nele que os primeiros títulos foram conquistados, foi ali que o Palestra passou a aceitar jogadores que não fossem da colônia e transformou-se em Cruzeiro Esporte Clube. A maior goleada do clube até hoje foi aplicada justamente no Estádio Barro Preto: em 1928, 14x0 contra o Alves Nogueira

Em 1945 o estádio foi reconstruído e modernizado. As arquibancadas de madeira das gerais foram substituídas por 11 degraus de cimento e passou a ter uma extensão de 250 metros. E as arquibancadas das sociais também substituídas por cimento, a área foi ampliada. A capacidade de público foi ampliada para 15 mil, tornando-se o maior estádio da capital belo horizontina até a construção do Estádio Independência, em 1950 (25 mil). 

Além das arquibancadas e da capacidade o campo também foi modificado, as laterais mudaram e a drenagem melhorou com a inclinação de 35 cm das laterais, de forma imperceptível – o declive chegava a 0° nas laterais – de maneia proporcional. 

Todas estas mudanças foram bancadas pelos sócios que contribuíram cada um com mil Cruzeiros. A reinauguração do estádio foi em 1° de julho de 1945 contra o Botafogo. Uma disputa acirrada entre os dois maiores atacantes da época Heleno de Freitas e Niginho, o evento bateu recordes de público.






CRUZEIRO 1 x 1 BOTAFOGO (RJ) 

Amistoso – 01/07/1945
Renda: Cr$ 91.000, (recorde)
Árbitro: Carlos Potengy (RJ)
Gols: Niginho 20/1º; Heleno 41/2o
Cruzeiro: Geraldo II (Sinval), Azevedo, Bituca, Bibi, Juca, Juvenal, Nogueirinha (Gabriche), Selado, Niginho, Ismael, Braguinha (Alcides). T: Chico Trindade.
Botafogo: Oswaldo, Gérson (Lusitano), Sarno (Laranjeira), Ivan, Spinelli, Negrinhão, Lula, Tovar, René, Heleno, Tim (Otávio), Bené. T: Bengala
*Sinval levou o gol.
Preliminar (juvenis): Cruzeiro 3 x 1 Guarani AC – Taça “Campeão Absoluto”


Meses mais tarde o estádio, que agora chamava Estádio Juscelino Kubitscheck, inaugurou sua iluminação. O time convidado para o evento o Flamengo, que não veio por conta dos desfalques, mas alegando impossibilidade de pouso no campo de aviação, então quem veio substituir o time foi o América (RJ).


CRUZEIRO 4 x 0 AMÉRICA (RJ) 

Motivo: amistoso 
Data: 21/11/1945 
Estádio: Barro Preto (Belo Horizonte-MG) 
Renda: Cr$ 35.000, 
Árbitro: Aristides Filgueiras (RJ) 
Gols: Braguinha 20/1º; Braguinha 13/2o; Niginho 21/2o; Braguinha 37/2o
Cruzeiro: Geraldo II, Azevedo (Ismael), Bituca, Adelino, Hemetério, Juvenal, Bibi, Nogueirinha, Selado, Niginho, Ismael, Braguinha. T: Chico Trindade. 
América: Vicente, Paulo, Grita, Oscar, Álvaro, Amaro, China, Maneco, Maxwel, Lima, Wilton (Ubaldo) 

O Cruzeiro conquistou naquele estádio nove Campeonatos de Belo Horizonte (1926, 1928, 1929, 1930, 1940, 1943, 1944, 1945 e 1956) e três Campeonatos Mineiro (1959, 1960 e 1961). Recebeu clubes de outros estados e até outros países tendo enfrentado 62 clubes e 7 “selecionados” em suas 478 partidas. Foram 285 vitórias, 96 empates e 97 derrotas, totalizando em 1.370 gols pró e 718 contra. 

Os maiores adversários do Cruzeiro no estádio foram:

AMÉRICA: 70 jogos, 36 vitórias e 16 derrotas
ATLÉTICO: 61 jogos, 24 vitórias, 24 derrotas
VILLA NOVA: 50 jogos, 28 vitórias, 12 derrotas
SETE: 47 jogos, 34 vitórias, 5 derrotas
SIDERÚRGICA: 41 jogos, 21 vitórias, 11 derrotas

*Texto originalmente postado em Blog do Cruzeirense. Revisado.

Revétria, o carrasco de 1977

Vamos relembrar o maior ídolo do clássico: Heber Carlos Revétria, que jogou no Cruzeiro de 1977 à 1978, fez 63 partidas e marcou 22 tentos. Naquela época o Campeonato Mineiro era disputado em duas fases de pontos corridos, os campeões das duas fases disputavam a final. O Atlético foi campeão da primeira fase e o Cruzeiro da segunda. E foi aí que a história do uruguaio Revétria começou no nosso clube, antes mesmo de estrear.

No dia 25 de Setembro de 1977 Cruzeiro e Atlético faziam a primeira partida da final num Mineirão cheio, com presença de 61.698 pagantes. O Atlético acabou vencendo a partida com um gol de Danival, marcado aos 28’ do primeiro tempo. Os atleticanos encheram o peito pra gritar campeão muito antes da hora, o jogador listradinho Cerezo foi às rádios (leiam: Itatiaia) soltar foguetes antes da hora, disse que enquanto ele e uns outros jogassem ali não perderiam para o Cruzeiro. O clima ficou tenso para a segunda partida.

O Cruzeiro entrou precisando de uma vitória a qualquer custo, era questão de honra, a vitória levaria os times à terceira partida, a “nega”. Era 2 de Outubro, quando o uruguaio recém contratado entrou ao lado de Joãozinho, ninguém ali imaginava que era o estreante quem ia fazer a festa da torcida azul. Com seu black-power, bigode e cordão de medalhinha marcantes o “hermano uruguayo” encaçapou três bolas no fundo das redes alvi-negras. Primeiro Marinho marcou 1x0 pra eles, e Revétria empatou. Já no segundo tempo Revétria marcou mais dois gols decidindo a partida, no final Reinaldo ainda diminuiu o placar. Atlético 2 x 3 Cruzeiro.

A terceira partida ocorreu uma semana depois, no dia 09. Jogo difícil, disputado e tenso. Reinaldo acabou acertando uma bola aos 35’ e colocando o Atlético na frente, diante dos 122.534 presentes. Os times foram ao intervalo com o jogo tendendo ao lado negro da lagoa.

Quando voltaram o gol demorou a sair, até os 70’ quando Revétria marcou o gol inúmeras unhas foram roídas nas arquibancadas. De novo, o uruguaio mudou a história do jogo: empatando o placar. O título foi decidido na prorrogação, na qual nos consagramos campeões marcando 2 gols, com Lívio e Joãozinho.

Há indícios de que atleticanos que compareceram ao jogos da final de 1977 até hoje sonham com gols de Revétria, alguns tentaram resolver o trauma com tratamento psiquiátrico, mas é só chegar perto de um deles e dizer “Revétria” que começam botar ovos. Revétria saiu do Cruzeiro em 1978 e foi para o futebol mexicano, mais tarde encerrou a carreira no River Plate, mas até hoje cultiva relações com o Cruzeiro. Inclusive foi o próprio que nos convidou para aquele Torneio de Verão, no qual também sapecamos as penas do emplumadinho.

*O terceiro jogo é até hoje o terceiro maior público em uma final de Campeonato Mineiro.

Texto originalmente postado em: Blog do Cruzeirense.

domingo, 14 de outubro de 2012

Jogador: Ninão

O jogador Ninão é um dos ídolos imortais de nossa história.

Ninão
João Fantoni  nasceu em Belo Horizonte, no dia 24 de Julio de 1905. Começou a jogar pelo Palestra Itália em 1923, com 18 anos e continuou defendendo as cores do clube até 1931 quando é transferido para a Lazio da Itália, onde fica conhecido como Fantoni I, já que seriam seus irmãos Niginho e Orlando e seu primo Nininho os Fantoni II, III e IV. Volta a defender o Palestra em 1936, até 1938, deixando grande marcas no clube. É, até os dias de hoje o quinto maior artilheiro da história celeste, o maior artilheiro brasileiro em uma só partida (10 gols contra o Alves Nogueira), título que divide com Dadá Maravilha, tem também a maior média de gols do clube 1,31 por jogo, já que em 127 jogos marcou 167 gols. Junto com Nininho é o primeiro jogador brasileiro a ser transferido de equipe internacionalmente. Também é o maior artilheiro do Campeonato da Cidade, com 43 gols em 1928.

Ninão fez parte de um dos maiores escretes palestrinos, o que levantou o tricampeonato da Cidade (1928-1930) e deixou grandes marcas como artilheiro, em 1942  volta ao clube como parte do Conselho Deliberativo e assume o posto de treinador em 1943, deixando em 1944 para a volta de Bengala ao comando da equipe, comandou a equipe em 27 partidas, vencendo 16 vezes, empatando 6 e perdendo 5.

1928 - Ninão, Niginho e Bengala
Toda sua família era palestrina, seu irmão Niginho e seu primo Nininho são também ídolos da torcida. Também jogaram pelo Palestra/Cruzeiro seu irmão Orlando. E anos mais tarde seu filho Benito jogou pelo Palestra (e pelo Atlético-MG) e seu filho Fernando pelo (América-MG e pela Lazio).

*Texto e informações adaptados. Originalmente postados na Cruzeiropedia.

O dia que Sorin me fez chorar


Se tivesse o poder de imortalizar pessoas eu imortalizaria duas: Cazuza e Juan Pablo Sorín. Assim como é impossível reler Só as mães são felizes, de Lucinha Araújo sem chorar em vários pontos do livro, seria impossível assistir à despedida do Sorín sem derramar lágrimas.



Três momentos choráveis: o Sorín comemorando o gol celeste enquanto jogava pelo Argentino Juniors, quando o mesmo voltou para o Cruzeiro no meio do segundo tempo e suas declarações com olhos marejados ao fim da partida. O amor que tenho por aquele cara é inexplicável, a saída dele do futebol é como perder o filho ou sei lá, inverbalizável.

Um belíssimo jogo de muita superação! Pablito mostrou que não está na hora de aposentar, que ainda tem muito fôlego e raça, me fez imaginar o que seria do Cruzeiro contando com o Sorín naquela noite contra o Estudiantes...

Um desespero me sacode: não sai homem, deixa eu te imortalizar!

É como se a ordem fosse “pega a bola e toca pro Sorín” e a onipresença dele no campo foi gratificante, incorporou o espírito de final – final da carreira, talvez – e não de amistoso. Correu atrás da bola, sorriu pra torcida, mostrou-se disposto a jogar de verdade, uma fome enorme de gol e mais de 55 mil corações aflitos esperando pelo gol do maior ídolo da nossa história recente. Pra mim, que não vi Joãozinho bater falta que não era dele, nem Piazza pedir para aplicarem a “porra” da injeção pra que ele voltasse à campo Sorín é sim o maior ídolo.

Nunca sairá da minha cabeça a imagem do jogador voltando a campo com a cabeça enfaixada pra marcar o gol da vitória cruzeirense na final da Sul-minas. E agora esperávamos que o jogador repetisse a dose na sua segunda despedida: faz gol!

O Cruzeiro ganhava por 2 a 0 e nenhum gol do ídolo estrelado. Do outro lado do gramado esperava ansioso o goleiro do AJR com sua câmera fotográfica pra frangar um gol do também ídolo deles.

O gol do Sorín era tão esperado que o goleiro do lado de lá apontou pro Bernardo tocar pro Sorín fazer um gol, mas o nosso ex-futuro-ídolo não viu e ficou pedindo desculpas depois. Seria o gol forjado mais emocionante da minha vida... Todas as almas cruzeirenses que desceram do repouso pra assistir àquela partida, todos os 55.000 presentes no Mineirão, os infinitos telespectadores, ouvintes de rádio... toda a China Azul esperava pelo gol do Sorín, torcíamos POR ELE.

Foi uma noite que Belchior poderia cantar: o tango argentino me vai bem melhor que o blues.

*Texto originalmente postado em Gol de Letras. Revisado e readaptado.

sábado, 13 de outubro de 2012

Recuperando a história celeste

Início agora uma série de textos sobre a história do Cruzeiro, vou contar desde 1921 até os dias atuais, a ideia é lançar um texto por ano, com curiosidades e ocorridos de cada ano, mas infelizmente não sei se tenho informações pra fazer um texto completo sobre cada ano, pode ser que tenha que fazer um texto para dois anos e outros anos necessitarão de mais de um texto.

Peço aos que tiverem fotos, jornais, curiosidades, qualquer tipo de informação que seja interessante pra este processo que me procurem aqui no blog ou por e-mail:

lilianalc92@gmail.com

Todas as fontes de informações serão devidamente citadas e inclusive partilharei os créditos dos textos caso o ajudante passe a ser co-autor.

Inicialmente os textos serão feitos para o Cruzeiro.org, mas passado determinado tempo de lançamento podem ser postados em outros sites, desde que contenham fonte e os artigos não sejam modificados.

A saga do Cruzeiro na Libertadores

A Copa Santander Libertadores começou a ser disputada em 1960, sua primeira partida terminou com uma goleada de 7 x 1 do Peñarol (que viria se tornar o campeão) contra o Jorge Wilstermann. Neste ano o torneio incluía apenas os campeões de cada um dos países participantes (o representante brasileiro foi o Bahia), os vices só passaram a disputar em 1966, ano que o Brasil não participou por achar que descaracterizava a competição (assim como a Colômbia). Atualmente a classificação já é um pouco mais complexa
.
O primeiro time brasileiro a vencer o torneio foi o Santos em 1962, a terceira edição. Tendo goleado duas vezes na fase de grupos, 9x1 em cima do Cerro Porteño e por 6x1 o Deportivo Municipal. O time sagrou-se bi-campeão no ano seguinte.

Em 1969, novamente, o Brasil não se inscreveu na competição por discordar do regulamento, assim como a Argentina, com exceção do Estudiantes de La Plata (Argentina) que entrou nas semi-finais da competição por ter vencido no ano anterior e conquistou então o bi-campeonato. O Brasil continuou sem participar em 1970 pelos motivos do ano anterior (regulamentação do calendário) e por achar que prejudicaria os times com a preparação para a Copa do Mundo. Este foi o ano da maior goleada da Libertadores: Peñarol 11 x  2 Valencia (Venezuela) . Além destas três vezes o Brasil participou de todas as outras edições tendo levado 16 títulos até então.

Cruzeiro na Libertadores

Libertadores de 1967

A primeira participação do Cruzeiro foi em 1967, entrou por ter vencido a Taça Brasil do ano anterior. O vice-campeão da taça (Santos) também tinha direito a participar da competição, mas desistiu. Neste ano o Cruzeiro passou da 1ª fase às semi-finais mas não conseguiu chegar à grande final.

Em 1974 - após um roubo muito escroto do juiz para o Vasco da Gama (o juiz assumiu ter dado o título ao Vasco, depois de se aposentar) - o Cruzeiro ficou como vice-campeão do Campeonato Brasileiro e classificado assim, pela segunda vez, para a Libertadores, em 1975. Eliminou os três times do seu grupo (incluindo o Vasco) e passou às semi-finais onde estagnou-se mais uma vez. Vice-campeão brasileiro de novo voltou ao torneio em 1976.


Libertadores de 1976

Classificado pela terceira vez começava a ser um dos tradicionais na disputa da taça e entrou para ser o segundo time brasileiro a vencer a competição, depois do Santos (13 anos depois). Venceu o Internacional por 5 x 4 no Mineirão, o Olímpia por 4 x1 e também por 4 x 1 o Sportivo Luqueño.

Passou às semi-finais. No dia 13 de Maio morreu Roberto Batata (atacante) de acidente automobilístico.  A morte do camisa 7 do Cruzeiro inspirou e uniu a equipe para o jogo seguinte que seria contra o Alianza Lima, no Mineirão. O jogo terminou com um largo placar de 7 x 1¹, o número da camisa de Roberto Batata.


Jogadores ajoelhados rezando por Batata, depois de conquistarem a América
Depois deste jogo, ainda pelas semis² goleou a LDU por 4x1 seguindo para a final contra o River Plate. No primeiro jogo, realizado no Mineirão o placar de 4x1 foi repetido pela 4ª vez na competição. No segundo jogo houve o revés de 2x1, no Monumental de Nuñez. E no terceiro e último jogo da Libertadores daquele ano consagrou-se campeão no estádio Nacional (Santiago) vencendo por 3 x 2.

O terceiro gol celeste foi de uma cobrança de falta bem inusitada, o cobrador da equipe (Nelinho) ia tomando distância da bola quando Joãozinho (um péssimo batedor) deu um chute inesperado na bola marcando o terceiro gol. Após o jogo ainda tomou uma bronca do técnico Zezé Moreira.

Em 1977, pela quarta vez, participou da disputa e perdeu para o Boca Juniors nos pênaltis do terceiro jogo por 5 x 4. Só voltou a competição em 1994, depois de campeão da Copa do Brasil em 1993, parando nas oitavas-de-finais.

Libertadores de 1997

O Cruzeiro conquistou o bi-campeonato da Copa do Brasil em 1996 e voltou ao torneio das Américas em 1997. Longe de ser um dos preferidos ao título perdeu os 2 primeiros jogos e não tinha praticamente nenhuma chance de passar da fase de grupos, o técnico Oscar foi demitido e contratado Paulo Autuori. O novo treinador determinou que de forma alguma o time poderia ficar pelo caminho (no Peru, após derrota para o Sporting Cristal, a terceira).
Gottardo levantando a Taça da LA97.

Depois disto a equipe uniu-se, com um único objetivo. E venceu o temido Grêmio, no Olímpico e as outras duas partidas da fase de grupos, classificando-se para as oitavas-de-finais que passou também sufocado, na disputa de pênaltis. Naquela época o goleiro era Dida, ótimo em defesa de pênatis, e garantiu a vaga nas quartas.

E foi nas quartas que reencontrou com o Grêmio e deixou o tricolor gaúcho para trás (2x0 e 1x2).

Na semi-final passou o Colo-colo de novo nos pênaltis e Dida neles! Até que chegamos à final:

Primeiro o empate em 0 x 0 na casa adversária, depois...

Com 95.472 pagantes e 102.000 presentes foi um jogo tenso contra o Sporting Cristal, aos 30 minutos do segundo tempo após um rebote de uma cobrança de escanteio Elivélton balançou as redes e explodiu a torcida aos gritos de "bi-campeão". Para o frio na barriga de todos, no fim da partida, surgiu uma falta perigosa contra a Raposa, mas Dida estava lá mais uma vez para espalmar a bola e Gottardo (capitão) pode levantar a taça ao som de "Ah! Eu tô maluco!" da torcida.

Desde então a equipe busca seu tri, com muita raça chegou novamente às finais em 2009, mas perdeu o título dentro de casa por uma virada de 2 x 1 do Estudiantes, uma partida que o time pouco valorizou sem ninguém nunca entender o motivo.

Atualmente o time já participou de 12 Libertadores. Em 1976 e 2008 teve o artilheiro da competição, em 76 Palhinha e em 2008 o boliviano Marcelo Moreno.


¹ O placar de 7x1 sobre o Alianza até então era o maior do Cruzeiro na Libertadores, foi batido em 2010,  marcando 7x0 contra o Real Potosí pelo segundo jogo da fase conhecida como pré-libertadores. 

² A competição tinha um formato diferente e as semi-finais eram parecidas com a fase de grupos, por isto o Cruzeiro jogou com dois times pela fase daquele ano.


Sugestão:

Copa Ouro 1995, Cruzeiro x São paulo


Entre 1993 e 1996 (exceto 1994) a Conmebol organizou um torneio entre os campeões da Copa Conmenbol, Copa Master da Supercopa, Supercopa Sulamericana e Copa Libertadores. A chamada Copa Ouro.

Em 1995, a decisão ficou entre Cruzeiro e São Paulo. As partidas também foi válida pelas quartas-de-finais da Supercopa Sul-Americana. Competição que o Cruzeiro parou nas semi-finais perdendo por 0 x 1 (Mineirão) e 3 x 1 (Maracanã) para o Flamengo.

O jogo das expulsões

O árbitro responsável pela única¹ vitória tricolor em confrontos internacionais entre São Paulo e Cruzeiro é Wilson de Souza Mendonça.



Foi um daqueles jogos que todo mundo bate a vontade e o juiz não apita. Então aos 39’ do primeiro tempo Wilson de Souza deixou passar uma falta rígida – merecida de expulsão – do lateral Rogério Pinheiro², do São Paulo sobre o zagueiro Rogério, do Cruzeiro. O dono do apito expulsou o zagueiro que sofreu a falta e o outro zagueiro, Vanderci, por reclamação.

Para recompor a defesa o técnico Ênio tirou os atacantes MacLaren e Dinei, além do volante Alberto, e colocou Luis Fernando Gomes, Luis Fernando e Serginho. Passados 4’ do retorno da partida, após a confusão, o árbitro expulsou mais dois: Serginho e Marcelo Ramos, por reclamação. O presidente Zezé Perrela e vários jogadores invadiram o campo paralisando a partida por 12 minutos. Mesmo com 7 jogadores em campo o time segurou o placar pelos minutos que restavam até o intervalo.


Mesmo sob tais condições o Cruzeiro conseguia oferecer perigo ao gol adversário. Em uma das jogadas "perigosas" o atacante Luiz Fernando Gomes caiu e se machucou, saiu de campo e não pôde voltar para o jogo. Como pelas regras da FIFA o mínimo são 7 jogadores para cada lado a partida foi finalizada aos 2’ do segundo tempo. O Cruzeiro foi o campeão, avançando para as semi-finais da Supercopa³, depois de também vencer por 1x0 no Morumbi e ganhar nos pênaltis por 4x1, com o brilhantismo do nosso goleiro Dida, talvez o melhor da história do Cruzeiro até hoje.





¹ Pela Recopa de 1993 houveram 2 empates em 0x0 e o São Paulo venceu a equipe mineira nos pênaltis, o que pode ser considerado a “outra única” vitória do time em competições internacionais contra o Cruzeiro [no texto tratei vitórias no melhor de 2 ou 3, não como jogo isolado, em 2010 o São Paulo voltou a eliminar o Cruzeiro, pela LA].
² Rogério Pinheiro já havia sido expulso duas vezes pelo Campeonato Brasileiro e o técnico Telê Santana estava a um passo de tirá-lo da equipe titular, tanto que no jogo de returno ele tinha sido multado pelo terceiro cartão vermelho.
³ Além de valer pela final da Copa Ouro 1995, as partidas também valiam pelas quartas-de-finais da Supercopa.


Fontes: blog Almanaque do Cruzeiro, site da IFFHS, site RSSSF e site da Conmebol.
As imagens também foram retiradas do blog Almanaque do Cruzeiro.

*Texto originalmente postado no blog Gol de Letras, revisado e adaptado.

Cruzeiro x Inter




O mais lindo clássico nacional é Cruzeiro x Inter, longe de serem times de torcidas rivalizadas ou terminarem em casos policiais. O verdadeiro espírito de clássico de futebol está sempre presente nesses jogos.

Tudo começou na década de 70, uma amarga derrota para o Colorado nos rendeu o vice-campeonato do Brasileirão de 75, o troco veio em 76 em um dos jogos mais memoráveis do Mineirão, Cruzeiro 5 x 4 Internacional, pela Libertadores. Depois, de novo, batemos o Inter dentro do Beira Rio por 2 x 0, tirando o que restava de esperanças para que o Colorado seguisse adiante na competição (Libertadores 76).

Em 1977 o clássico repetiu na semi-final da Libertadores: primeiro mais uma vitória celeste no Beira Rio, depois um empate sem gols no Mineirão. Para amargar um pouco mais o chimarrão quem passou à frente foi o Celeste, que tropeçou diante do Boca Juniors levando o vice da Libertadores daquele ano.

Os anos se passam e o clássico continua. Ano passado [2009] tivemos uma prova da força dos dois times num Inter 2 x 3 Cruzeiro, também memorável, dentro do Beira Rio. Jogo que tive a impressão de ver o mesmo espírito da década de 70 agir, com uma virada espetacular do Cruzeiro que foi o pontapé pra reação no Brasileiro.

Dos 70 jogos disputados o Internacional tem a vantagem, com 27 vitórias, o Cruzeiro chega perto, com 25. São 18 empates. Os Colorados já marcaram 92 gols contra 91 Celestes. O grande artilheiro do confronto é Joãozinho com 6 gols marcados.

*Texto postado originalmente em Gol de Letras. Com dados estatísticos atualizados e conteúdo adaptado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cruzeiro 3 x 3 Atlético, 1967

Um dos maiores clássicos da história do Campeonato Mineiro.

Falarei hoje de um dos clássicos RapoCota mais memoráveis de todos os Campeonatos Mineiros, vou falar de um jogo de 1967. E olha que foi difícil escolher este jogo, estava em dúvida de vários anos, quando decidi por 67 não sabia se falava do 3x3 ou do 4x0. Resolvi falar do empate porque foi um dos jogos mais memoráveis de todos Mineiros, ou até de todos os clássicos. Mas o objetivo hoje é o Mineiro, por isso não optei pelo placar mais vistoso.

Era domingo, 26 de novembro de 1967, a capital mineira inteira parava para assistir o maior clássico da cidade, de um lado o Atlético precisava apenas da vitória para sagrar-se campeão, tendo já 5 pontos a frente do rival Cruzeiro, que precisava vencer pra respirar um pouco. Aos 8’ o Cruzeiro perdeu Tostão por uma contusão e a coisa ficou mais difícil, como se não bastasse Procópio foi expulso aos 25’, ainda do primeiro tempo. Enquanto o bicho pegava pro lado celeste a torcida alvinegra só comemorava, e comemorou aos 15’ do segundo tempo um sonoro 3x0 que garantiria o título, os torcedores já provocavam com gritos de “É campeão!” quando Natal diminuiu o placar e silenciou o estádio.

Silenciou nada, em seguida Natal marcou de novo e quem começou a gritar foi a China Azul, empurrando o time pra frente porque ainda havia tempo de empatar e quem sabe até vencer. Cronômetro que passava dos 30’ quando Dirceu Lopes foi empurrado dentro da área e PÊNALTI. O ar quente de novembro sufocava os torcedores alvinegros que poderiam perder ali a chance de conquistar o título antecipadamente, também era pesado para os pulmões celestes e ansiosos, cada segundo durava semanas nos corações da torcida enquanto Piazza preparava para chutar, e... GOOOOOL! Cruzeiro empata heroicamente marcando 3 gols em 15 minutos e ainda tinha tempo de sobra pra virar.

Bola pra cá, bola pra lá, os dois times queriam a vitória. O Atlético não vencia o Cruzeiro desde 26 de junho do ano anterior, tendo perdido desde aí duas vezes e empatado três. O Cruzeiro também precisava da vitória pra encostar no Atlético e buscar o título. Minuto a minuto o jogo ia passando baixo muita cantoria celeste.

Mas ficou nisso mesmo, mais 15 minutos de muita raça e sem gols. A torcida ia esvaziando o Mineirão quando o juiz apita uma falta para o Cruzeiro, 44’ e corre Zé Carlos pra bater, silêncio outra vez, o ar ainda mais pesado, um público de quase 91.000 pagantes assistia o espetáculo. E vem Zé Carlos, olho na barreira, olho na bola, olho no gol e manda a bomba. TRAAAVE!

Quase, quase, quase. E a torcida saiu mesmo com o 3x3. Empate, aliás, que deu fôlego pro Cruzeiro levar o Tricampeonato Mineiro (para completar no ano seguinte e fechar o Tetra). Um dos maiores públicos do Mineirão, um dos maiores jogos, sem dúvida.





FICHA DO JOGO

Data: 26/11/1967
Local: Mineirão (Belo Horizonte - MG)
Motivo: Campeonato Mineiro de 1967
Público: 90.838
Renda: Ncr$ 272.761
Árbitro: Etelvino Rodrigues (SP0
Gols: Lacy 21', Ronaldo 391, Lacy 15' do 2º; Natal 16' e 18' do 2º, Piazza (P) 30' do 2º.
Cartões: Procópio (V).

Cruzeiro: Raul, Pedro Paulo, Viktor, Procópio, Neco, Piazza, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo, Tostão (Zé Carlos), Hilton Oliveira. Técnico: Orlando Fantoni.

Atlético: Hélio, Canindé (Dilsinho), Vander, Grapete, Décio Teixeira, Wanderley, Amauri, Buião, Ronaldo, Lacy, Tião. Técnico: Freitas Solich.

Texto originalmente postado em Cruzeiro.org.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Jogadores que atuaram dos dois lados: Atlético-MG e Cruzeiro

Goleiro


 - Paulo Cesar Borges
- Hélio



Zagueiros

Cléber Américo da Conceição
- Cláudio Caçapa
- Leonardo Silva
- Luizinho
- Procopio Cardoso
- Marcelo Djian


Laterais


- Nelinho


Meio-campo


- Ramon Menezes
- Valdir Benedito
- Toninho Cerezo
- Éder Aleixo
- Paulo Isidoro
- Lazarotti
- Boiadeiro
- Palhinha
- Valdo


Atacantes


- Fábio Jr.
- Reinaldo Rosa
- Paulinho McLaren
- Guilherme de Cássio Alves
- Guilherme Milhomem Gusmão
- Reinaldo
- Niginho
- Renato Gaúcho

Se lembrarem mais jogadores coloquem nos comentários, vou atualizando a lista.

A travessia do futebol (parte III)

O futebol quer sair da várzea 

- Proletariado Futebol Clube 

As empresas perceberam que criando times com seus nomes podiam divulgar a sua marca, enquanto mais longe fossem nas competições mais marketing estariam promovendo. Passaram a pagar extras aos operários-jogadores, os ditos “bichos”. Para melhorar a renda da família os operários jogavam futebol, não era por amor, era por necessidade. 

Além do dinheiro os bons jogadores eram promovidos dentro das empresas, passando ao serviço “leve” e sendo dispensados em algumas ocasiões. Esses times acabaram revelando jogadores como Domingos da Guia

O ano de 1923 é um grande marco para o futebol brasileiro, não só o amadorismo começava a ser colocado de lado, mas também os preconceitos com a participação de jogadores negros e da classe baixa. Finalmente o elitismo do esporte começou ser combatido. 

Desde 1915 alguns clubes, como o Vasco da Gama, contavam com jogadores do subúrbio, o que nunca havia incomodado a elite, já que o time pertencia a segunda divisão do Campeonato Carioca. Os jogadores vascaínos jogavam por uma renda e não por lazer, o que começou incomodar os times da Zona Sul quando o time “do subúrbio” instalou-se na primeira divisão, em 1923. 

Com negros, analfabetos, um pintor de parede e um taxista o cruzmaltino conquistou o Campeonato Carioca daquele ano. A ideia infernizou a elite futebolista que não gostou nem um pouco de ser tratada de dividir o mesmo espaço entre negros e brancos, intelectuais e analfabetos. 

Em protesto os “grandes clubes” desarticularam-se da LMDT (Liga Metropolitanda dos Desportos Terrestres) e formaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), a nova liga excluía em seu regulamento os “trabalhadores braçais”, “analfabetos” e os “que não possuem empregos definidos” sob uma séride de desculpas. 

O profissionalismo também tomava força na Europa, quando a Juventus pagou pela transação de um jogador o caso foi para a justiça. Com a Juventus vencendo, a compra de passe de jogadores passou a ser mais uma das características do futebol profissional. 

Alguns jogadores chegaram a protestar no Jornal Gazeta contra o amadorismo, exigiam ser tratados como profissionais. Em 1931 alguns jogadores foram transferidos para a Europa em busca do profissionalismo, andavam revoltados por não receberem dignamente pelo futebol. 

Com as manifestações acima citadas, e as não citadas, mais o impulso dado pelo presidente Vargas para organizar o futebol nacional e as exigências de profissionalismo para pertencer à FIFA alguns clubes começaram a mover-se. No ano de 1933 estas mudanças foram levadas mais a sério. Vasco, América, Fluminense e Bangu rompem com a AMEA e fundam a Liga Carioca de Football que atendia às exigências do profissionalismo. 

Em São Paulo, a Liga Paulista de Futebol e a Associação Paulista de Futebol desfiliam-se da CBD e fundam a FBF que atendia às exigências da FIFA e filiaram-se a tal. Ainda em 1933, inicia-se o torneio Rio – São Paulo, que impulsiona mais tarde a criação de um campeonato nacional. 

Em 1937, a CBD finalmente aceita o profissionalismo, e o amadorismo é extinto do futebol brasileiro. 

Depois do fim da Segunda Guerra Mundial a FIFA volta a promover a Copa do Mundo. Então, em 1950, o Brasil sedia o Mundial na esperança de consagrar-se campeão pela primeira vez. Até porque agora o futebol não é mais formado pelos amadores que disputaram pelo Brasil as outras edições. 

A Copa foi um fiasco, o Brasil perdeu para o Uruguai em pleno Maracanã – estádio construído especialmente para sediar a Copa do Mundo. O sentimento dos brasileiros pela seleção acabou aumentando e o amor ao futebol também, embora os torcedores fossem – em sua maioria – os moradores das capitais. 

1950 também foi marcado pela volta do torneio Rio – São Paulo. 

Oito anos depois o Brasil finalmente conquistou sua primeira Copa do Mundo, com Garrincha, Pelé, Nilton Santos e outros nomes nunca esquecidos na história do futebol do país. A seleção canarinho finalmente foi conhecida pelo mundo inteiro que passou a admirar nosso futebol inigualável.

Originalmente postado em Bagatelas

terça-feira, 8 de maio de 2012

A travessia do futebol (parte II)

As viagens da bola no Brasil
- O descobrimento da bola de couro

Diz a lenda que em 1874 alguns marinheiros estrangeiros disputaram a primeira partida de futebol em terras brasileiras, o que voltou acontecer em uma exibição para Princesa Isabel quatro anos mais tarde. Alguns dados também apontam o rúgbi como precursor do esporte no país. Há quem acredite em outras possíveis partidas ocorridas pelo Brasil afora no meio da década de 1870, não sendo comprovado também o verdadeiro início da prática do esporte no Brasil. 

A então regente do Império Brasileiro, Princesa Isabel, era apaixonada por um esporte britânico chamado críquete, junto a alguns ingleses abolicionistas que percorriam o Brasil ela acabou fundando, em parceria com a empresa São Paulo Railway, o clube que mais tarde seria o primeiro de futebol do país: São Paulo Athetic Club. Em 1888.







Em 1894, Charles William Miller trouxe da Inglaterra para o Brasil uma bola de futebol junto às regras do jogo. Convidou os amigos para uma partida de “um tal” de football. Em entrevista a revista O Cruzeiro, em 1952, ele narra o diálogo: 

“_ Com que bola vamos jogar? 
_ Eu tenho a bola. O que é preciso é enchê-la. 
_ Encher com que? 
_ Com ar. 
_ Então, vá buscar que eu encho.”

No ano seguinte ocorreu a primeira partida que se tem registro, de fato. Os funcionários da empresa São Paulo Railway x os da Companhia de Gás. O futebol tornou-se então mais uma modalidade esportiva do São Paulo Athletic Club, e Charles Miller foi nomeado conselheiro do clube. 

A massificação do futebol no Brasil ocorreu devido à ajuda de vários difundidores. Em 1897, Oscar Cox leva o futebol ao estado carioca. Ainda no fim da década de 1890 vários clubes foram fundados, no Rio, em São Paulo, na Bahia e no Rio Grande do Sul, principalmente. Em 1904 o futebol chega em Minas Gerais através de Vitor Sepa. Só em 1908 que Charles Wrigth leva o jogo dos pés ao Paraná. Assim, a “notícia” foi espalhando de estado à estado. 

- A organização dos campeonatos 

Em 1902 o primeiro Campeonato Paulista de Futebol é disputado, tendo São Paulo Athletic Club como campeão. E em 1905 os baianos também organizam suas partidas com a criação da Liga Bahiana de Sports Terrestres. No Rio, o primeiro Campeonato Carioca é disputado em 1906 e vencido pelo Fluminense

O esporte tornou-se ainda mais popular quando o clube inglês Corinthians Football Club iniciou suas viagens para o exterior europeu. Chegaram ao Brasil em 1910 e foram embora deixando “outro Corinthians” fundado pelos paulistas. 

Em 1914, a Federação Brasileira de Sports (FBS) é fundada no intuito de organizar o esporte inglês nacionalmente, criando também uma Seleção Brasileira cujo primeiro título chegou no mesmo ano sobre a Seleção Argentina, a Copa Roca

Cinco anos mais tarde a Seleção Brasileira vira paixão nacional ao vencer seu primeiro Campeonato Sul-Americano de Futebol (atual Copa América), na data da final – contra o Uruguai – o presidente Delfim Moreira decretou feriado facultativo para as repartições públicas.

Originalmente postado em Bagatelas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A travessia do futebol (parte I)

Não se sabe a verdadeira origem do futebol. Mas por volta de 3000 a.C os chineses se reuniam para chutar a cabeça dos soldados inimigos após a batalha. O que era na verdade um exercício de treinamento, conhecido como tsu-chu. As cabeças dos inimigos foram substituídas por bolas de couro, revestidas com cabelo, dois grupos - de oito jogadores cada -, reuniam-se tentando passar a bola de pé em pé sem deixaá-la cair no chão, jogando-a para dentro de estacas fincadas no chão que ficavam ligadas por um fio de cera. 

No Japão antigo também houve outra versão do esporte "chinês", neste era proibida a participação das mulheres, o que era permitido na versão chinesa, o nome é Kemari. O jogo era praticado por integrantes da corte japonesa, com oito jogadores para cada lado, as bolas eram confeccionadas a partir de fibras de bambu e era proibido o contato físico entre jogadores. Há relatos de interação do kemari entre chineses e japoneses. 

No século I a.C os gregos criaram a própria versão “do futebol”, nomeada Episkos, em campos de 200m² as partidas eram decididas, com 15 jogadores (de 9 à 15 jogadores) para cada lado, e as bolas eram feitas de bexiga de boi recheadas de areia. Mais tarde, quando o Império Romano tomou a Grécia, os romanos reformaram o esporte tornando-o muito violento. Como o mundo ocidental sofreu muita influência do Império Greco-Romano creio que é a partir do episkos que a idéia milenar de: rolar um objeto esférico com os pés entre dois times marcando pontos para quem colocasse a bola em determinado espaço, tenha se difundido até tomar o formato inglês. 

Na Idade Média o soule, praticado por militares da região que atualmente é a França, era um esporte bastante violento, permitindo socos, chutes e empurrões. Há relatos, inclusive, de mortes por violência na prática do esporte. As equipes eram ainda maiores que as do espiskos, com 27 jogadores para cada time. O esporte era uma introdução dos romanos, portanto tinha origens gregas. 

A versão italiana do soule era conhecida como gioco del cálcio. O objetivo do jogo era levar a bola até um poste do outro lado do campo. Por conta da violência do jogo o rei Eduardo II decretou uma lei que condenava à prisão quem continuasse praticando o jogo. Ainda assim o jogo continuou, mas agora (1580) com leis que proibiam a violência e eram aplicadas por 12 juízes que acompanhavam a partida. A quantidade de jogadores variava de acordo com o tamanho do campo, não sendo limitada. 

Então, os ingleses passaram a comemorar a data da expulsão dos dinamarqueses com uma bola de couro, que simbolizava a cabeça do inimigo. Já no século XVI o esporte tinha tornado-se popular por todo o país, mas era muito violento. Em 1700 finalmente tudo passou a ser finalmente regrado e controlado: o tamanho do campo (120mx180m), a nomeação dos arcos nos extremos do campo: gols. Em 1848 estabeleceu-se um código de regras para o futebol. 

A partir de então o esporte começou a encorpar-se, em 1871 foi criada a posição do “guarda-redes”, arqueiro ou goleiro, que era aquele que podia colocar as mãos na bola e devia ficar próximo ao gol. Em 1875 as partidas foram definidas em 90 min. com dois tempos de 45min., 1891 as faltas dentro da área do goleiro passaram a ser convertidas em pênalti. Por fim, em 1907 o impedimento. 

A profissionalização do futebol inglês deu-se 1885, no ano seguinte uma organizadora das regras e competições foi criada: a International Board. Em 1888, com o objetivo de criar torneios e campeonatos internacionais foi fundada a Football League. Mas, só em 1897 que o jogo foi levado para fora da Europa, um time chamado Corinthians viajou para o exterior do continente apresentando o jogo à vários países. 

Em 1904 o esporte foi popularizado mundialmente com a fundação da FIFA, que até hoje é a instituição que organiza à nível mundial a prática profissional do esporte.

Texto originalmente postado no blog Bagatelas.
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Aproveito para relembrar o cabeçario do meu blog Bagatelas, que acabei apagando por falta de tempo pra postar.



terça-feira, 10 de abril de 2012

Era uma vez estatístico

O historiador esportivo Henrique Ribeiro, que trabalhou no departamento histórico do Cruzeiro contabiliza 455 jogos entre Cruzeiro e Atlético e um (1) possível jogo de 1922 cujos pontos foram concedidos ao Cruzeiro, mas não há placar registrado, portanto é possível que o Atlético tenha preferido não disputá-lo já que não havia mais possibilidades de levar o campeonato. 

Sendo assim o Cruzeiro afirma que foram 455 jogos. Já o Atlético contabiliza 473 partidas entre os dois times. O pesquisador Henrique Ribeiro retruca que os jogos a mais considerados pelo Atlético eram de juvenil, sem juiz ou amistosos em tempo irregular, não merecendo entrar no critério. Mas nem sequer isso os historiadores atleticanos afirmam, apenas insistem em seus números. 

Por isso obviamente trabalharei com os números do escritor do Almanaque do Cruzeiro, nosso querido Henrique Ribeiro. São 158 vitórias celestes, 178 derrotas e 120 empates. Perceberam que apesar de nascer 13 anos depois dos alvinegros a Raposa conseguiu superar-se num curto espaço de tempo e tem apenas 20 vitórias a menos? 

Desde que o Campeonato Mineiro e o Brasileiro estão neste modo é muito provável que as equipes se encontrem 3 vezes pelo Mineiro e 2 pelo Brasileirão, ou seja 5 vezes por ano. As 20 vitórias a mais poderiam (com 100% de aproveitamento) ser superadas em apenas 4 anos. O que são 4 anos perto de 13 “de supremacia”? 

Pense se o Ipatinga fosse de BH e tivesse seguido no ritmo que estava nos últimos anos. Ainda que “crescendo” o time era pequeno e tomou muita pancada. Sabe quanto tempo o Tigre demorou pra chegar aonde chegou? Quase 10. Isso porque teve uma evolução rápida. 

Mas ok, vamos continuar com o que nos interessa. Até uma briga em 1929 (8 anos) os times não eram rivais, a rivalidade do estado era apenas entre América e Atlético, mas neste ano as equipes brigaram por conta de um árbitro que não veio do Rio e a história complicou até o Palestra expor uma bola com a marca “Palestra 5 x 2 Athletico” para infernizar o outro lado. 

Podemos considerar que a coisa vira clássico aí! E o Palestra/Cruzeiro conseguiu superar os 8 anos anteriores, os 13 de supremacia de Atlético e América e é hoje o maior time de Minas, maior em conquista, em torcida, em patrimônio, reconhecimento e o que mais quiserem. 

“Ah, mas ainda não ultrapassaram nossas vitórias e nossos campeonatos mineiros”. É verdade, essas 20 vitórias e esses 4 campeonatos mineiros são pequenos números e ao invés de honrosos deveriam ser vergonhosos, não? Alguns consideram que Atlético e Cruzeiro só passa a ser o maior clássico de Minas em 1965 com a construção do Mineirão, sendo o Cruzeiro, até então o terceiro time de Minas. Então, eles deixam de ter só 13 anos a frente e passam a ter 44 e ainda acham muito bom ter apenas 4 campeonatos e 20 vitórias a mais? 

Com 4 anos de 100% de aproveitamos podemos superar essa “história centenária”. Mas considerando a média de vitórias dos últimos anos é previsto que passemos esse número em 6 anos. Então já comecem a fazer contas, torcer pra tudo dar errado e nos encontrarmos menos que 5 vezes por ano, sem amistoso, sem encontros na Copa do Brasil, continuem não indo pra Libertadores, continuem comemorando a inferioridade de vocês. O último argumento está por cair.

Obs: historiadores de qualquer time (mesmo que não seja dos dois times mineiros) sintam-se à vontade para discutir o tema e inclusive contestar as idéias e números com outras provas. O próprio Henrique Ribeiro me desminta se eu tiver usado o nome dele de modo errado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Taça Brasil 1966 - O reconhecimento a nível nacional

A Taça Brasil partia para sua oitava edição, a segunda com participação do Cruzeiro. Logo na primeira edição o Bahia tinha faturado o título, sobre o Santos, quebrando parte da cristalização que havia em torno dos clubes dos estados Rio de Janeiro e São Paulo; a segunda edição sagrou o Palmeiras campeão nacional; da terceira até a sétima o escrete do “Santos do Rei Pelé” havia faturado tudo. 

O Bahia até tentou levar o título em cima do Santos outras duas vezes (1961 e 1963), mas nem o “Botafogo de Garrincha e Nilton Santos” conseguira o feito (1962), o Flamengo (1964) e o Vasco (1965) também tentaram, mas ninguém escapou de goleadas no Pacaembu. 

1966 

Escondida nas alterosas das Gerais havia uma única seleção destinada a parar a bola “do campeão de todos os anos”, o campeão mineiro Cruzeiro Esporte Clube, quando digo seleção me refiro à um time que poderia ser integralmente convocado para qualquer Copa do Mundo sem pestanejar, seus nomes: 

Raul; Pedro Paulo, William, Procópio, Neco; Piazza, Dirceu Lopes, Tostão; Natal, Evaldo e Hilton Oliveira. 

Que, paralelamente, disputavam Taça Brasil e Campeonato Mineiro de 1966. 

Oitavas-de-finais 

O primeiro adversário Celeste foi o Americano, campeão fluminense: Tostão, Natal, Zé Carlos e Evaldo marcaram 4x0 no estádio Goytacaz, com destaque para o recém chegado da seleção (Tostão) e Evaldo que jogava na cidade em que nasceu. Uma semana depois as portas do Mineirão foram abertas para recebê-los e dá-lhe outra goleada, 6x1. 

Dali pra frente não haveria mais facilidade para Tostão e companhia, classificado para representar o Grupo Centro (que dividia a Zona Sul com o Grupo Sul) o adversário seria outro grande clube, o Grêmio de Porto Alegre. 

Quartas-de-finais 

Apenas seis dias após o Marechal gaúcho Artur Costa e Silva assumir a presidência do Congresso Nacional (03 de Outubro de 1966) o Cruzeiro foi à Porto Alegre enfrentar o tricolor gaúcho poderoso em sua marcação, contra nossos toques leves. O resultado acabou em 0x0, trazendo toda a tensão para o Mineirão. 

No dia 23 de Outubro recebemos o Grêmio no Gigante da Pampulha, o jogo era tão truncado e tenso quanto fora no Olímpico, para piorar quem abriu o placar foi o jogador Vieira, dos adversários. Não demorou para Marco Antônio, que entrara no lugar de Evaldo, empatar. O ídolo Tostão foi quem virou, ao bater um pênalti. 

Semi-finais 

Era a primeira vez que um clube mineiro ia às semifinais, enfrentaria ali o Fluminense – que já entrava direto nesta fase. Não houve muita dificuldade para passar o campeão da Guanabara, Tostão acredita que houve uma tensão por ambos os lados: pelo futebol mineiro não ser conhecido como hoje – graças ao favoritismo do eixo.

“Todo jogador fica ansioso antes de jogos decisivos. Assim também foi na época. Como o futebol não tinha o prestígio que tem hoje, havia mais curiosidade sobre o Cruzeiro. Acho que isso também nos ajudou” afirmou Tostão em entrevista ao Alexandre Simões. 

No Mineirão, com gol de Evaldo aos 30’, a partida terminou em 1x0. Já no Maracanã o jogo foi bem mais expressivo com quatro gols, um tricolor e outros três celestes, todos marcados por jogadores cruzeirenses: Evaldo (2), Dalmar (1) x Piazza (contra). Inacreditavelmente o Cruzeiro chegava à final da Taça Brasil. 

Final 

O futebol mineiro não era reconhecido nacionalmente, logo, o Cruzeiro não parecia assustar muito. Do lado oposto o Santos impunha respeito com seu penta-campeonato (Taça Brasil 1961-1965). A experiência do time santista acabou caindo sob os pés da habilidade e agilidade do jovem time celeste. 

Eram 77.325 “cabecinhas pulando” nas arquibancadas da Pampulha. No primeiro minuto Zé Carlos marcou um gol contra e o placar celeste já começava bem. Não demorou 5 minutos para Natal ampliar a vantagem e desesperar os corações da china azul. 

Passada a euforia dos 15 minutos iniciais o Cruzeiro ainda mantinha seu domínio do jogo, então Dirceu Lopes marcou o terceiro, aos 39’ marcou o quarto e Tostão terminou com o quinto aos 42’. Foram para o vestiário com a bela vitória parcial. Ao voltarem, Toninho marcou dois gols logo no início da partida, o que – revela Tostão – deixou o time apreensivo, “ainda mais em se tratando do Santos, (...) O gol de Dirceu Lopes definiu o resultado”. 

Na segunda partida nenhum outro resultado interessava ao Santos, eles queriam a vitória, esticar a decisão para a terceira partida e vencerem. E assim quase foi. Pelé abriu aos 23’ e Toninho Guerreiro ampliou aos 25’. Foram para o intervalo numa situação bem diferente da do jogo anterior. Embora muitos contem que Mendonça Falcão (presidente do Santos) tenha ido ao vestiário do Cruzeiro combinar o local da terceira partida, o que teria sido usado para motivar os jogadores Tostão não se lembra do ocorrido: 

“Não tenho certeza se isso é verdade. Ficamos sabendo disso depois do jogo. Não me lembro de ter visto Mendonça Falcão no vestiário, no intervalo do jogo. Nem isso foi usado pelo Cruzeiro para motivar os jogadores como falam”. 

O time voltou com outra postura pro campo e passou a dominar do jogo como se jogasse em casa, quando um pênalti – à favor do Cruzeiro – foi marcado, tudo parecia dar certo. Tostão preparou pra bater e... “Quando perdi o pênalti, o Cruzeiro dominava o jogo e criava muitas situações de gol. Por isso, percebi que ainda era possível virar a partida. Logo depois, fiz um gol de falta, quase sem ângulo”. 

Dez minutos depois do gol de Tostão, Dirceu marcou o segundo e empatou a partida. Natal virou nos minutos finais e não tinha pra mais ninguém. Cruzeiro campeão nacional, classificado para a Libertadores 1967. Se não acreditavam “no time mineiro” tudo bem, mineiro come bem quieto mesmo. 

O Cruzeiro sempre foi este time desmistificador. Quando ninguém parava o Santos o Cruzeiro atropelou. Quando ninguém ganhava Libertadores o Cruzeiro trouxe uma. Copa do Brasil contra o Palmeiras? Trouxemos. Contra São Paulo? Também.





Originalmente postado em Blog do Cruzeirense.

Libertadores 1998 – Acordando antes de sonhar

Ao conquistar a Libertadores de 1997 o Cruzeiro garantira sua vaga na edição do ano seguinte. Entre as duas competições ocorreram muitas coisas: o time bi-campeão da Libertadores ficou à 4 pontos do rebaixamento no Campeonato Brasileiro,  o técnico Paulo Autuori deixou o cargo de técnico do Cruzeiro para defender o Flamengo. 

Considero aquela como a pior participação do Cruzeiro em Libertadores. Até hoje a única edição em que não obtivemos nenhuma vitória, única edição em que participamos de apenas uma fase, no caso, as oitavas de finais. 

Fomos facilmente eliminados pelo Vasco, que mais tarde seria o campeão da edição, com uma derrota por 2 x 1 e um empate sem gols no Mineirão, diante de quase 63.000 pagantes. Tudo bem que o Vasco ainda passaria por Grêmio e River Plate até bater o Barcelona (Equador), na final, e sagrar-se o campeão. Ou seja, não perdemos para “qualquer time”, perdemos para o futuro campeão daquela edição. 

Fomos eliminados antes mesmos de começar a sonhar com as faixas de tri e a terceira Taça no escudo, isto nos forçou a acordar enquanto era tempo: depois da queda na Libertadores ainda conquistamos o tri-campeonato Mineiro, com três gols de Fábio Jr., um placar de 3 x 2 contra o Atlético – MG (partidas em 07 e 11 de Junho). No final do ano perdemos, no terceiro jogo, o tão sonhado título de Campeão Brasileiro – que ainda não tínhamos. Ainda vencemos a Supercopa, em Setembro. 

Em resumo, assim como a maior parte da década de 90 foi um bom ano, mas falando de Libertadores foi uma vergonha. Às vezes me questiono se não dava pra ter vencido com Dida, Fabio Jr. e outros campeões do ano anterior, mas um contra-pensamento logo surge afirmando que em 1997 nunca tivemos a equipe dos sonhos, tivemos apenas a união dos sonhos. 

O bom time do Vasco talvez merecesse, e se não tivéssemos caído tão cedo na competição poderíamos não ter ido tão longe no resto do ano.

Originalmente postado em Blog do Cruzeirense.

Libertadores 1997 – Reconquistando a América

Bastou o sacode de 1994 para que o time não desperdiçasse a oportunidade em 1997. Mentira! Precisamos de muitos sacodes pra não desperdiçar aquela oportunidade. Zezé Perrela já estava no comando do Cruzeiro há dois anos, era a primeira classificação para o torneio desde que ele assumira o cargo de presidente do time. Primeiro veio a conquista do bi da Copa do Brasil, em 1996, em seguida o bi das Américas (1997). Outra página verdadeiramente heroica do time que deu uma virada radical no meio da fase de grupos, com a troca de técnico.

Fase de Grupos 

A Raposa começou muito mal, jogando no grupo de Grêmio, Sporting Cristal e Alianza Lima. Sob o comando do técnico Oscar. O primeiro jogo foi contra o Grêmio, no Mineirão uma derrota: Cruzeiro 1 x 2 Grêmio; depois fomos ao Peru encarar o Alianza Lima onde perdemos por 1 x 0; três dias depois já sob o comando do novo técnico, perdeu para o Sporting Cristal também por 1 x 0. 

Três derrotas em três jogos, as chances matemáticas eram mínimas. Diante de tanta pressão da torcida o “técnico” Oscar foi demitido – após a derrota para o Alianza - e foi contratado Paulo Autuori, além dos jogadores Gottardo e Marcelo Ramos. Houve uma reunião após a derrota para o Sporting Cristal que reativou os ânimos dos jogadores para que não saíssem de cabeça baixa da competição, o que “criou uma união do grupo que até ali não existia”, segundo Nonato, que diz que a partir dali o time começou a mostrar “força e atitude”. Na reunião o novo técnico afirmou que “de forma alguma o time poderia ficar pelo caminho”. 

Primeiro despachamos o Grêmio no Olímpico, por 1 x 0. Depois por 2 x 0 o Alianza Lima e por último o Sporting Cristal por 2 x 1. O time era outro, classificou-se na marra calou os matemáticos. No site da Conmebol a manchete era “Nunca um campeão da Libertadores conseguiu uma arrancada tão supreendente”, “Não está morto quem briga” (Confederação Sul-Americana de Futebol). 

Oitavas-de-finais 

Nas oitavas pegamos El Nacional, também foi um sufoco. Mas a união do grupo e a vontade de vencer prevaleceram. Primeiro jogo fora, no Equador, derrota por 1 x 0 colocando em xeque os ânimos do time. No jogo de volta, no Mineirão, apenas 19.964 pagantes acreditaram no time de Autuori e foram ao estádio. Com alguma dificuldade o time venceu, marcando um gol e terminando com aquele placar magro mesmo. O resultado levou a decisão aos pênaltis, o que nunca foi uma má notícia enquanto tínhamos Dida defendendo as redes. 

O resultado dos pênaltis foi Cruzeiro 5 x 3 El Nacional, graças à nossa Muralha Azul. Resultado que nos colocou de frente com o Grêmio para as quartas-de-finais. 

Quartas-de-finais 

A torcida acreditava um pouco mais no time, mas ainda tinha seu pé atrás. Mesmo assim um bom púbico, 38.369 pagantes foram à Pampulha receber um de nossos fregueses em jogos decisivos. O apoio da torcida e a união do grupo repercutiram num 2 x 0 sobre o tricolor porto-alegrense. 

Fomos ao Sul com a moral em alta encarar o tricolor novamente. Com o apoio da torcida colorada classificamos para as semi-finais depois de uma derrota por 2x1. A esta altura as desconfianças a respeito do time já haviam se apaziguado, a torcida percebia sua importância e a determinação do time em campo, então fomos às semis. 

Semi-finais 

Para receber o Colo-colo, do Chile o público foi menor: 31.346 herdeiros do manto celeste foram ecoar suas vozes no Mineirão. Fácil ou não saímos vitoriosos da partida com um placar simples de 1 x 0. No jogo de volta o placar foi mais expressivo, um 3 x 2 para o Colo-colo. Não valendo o gol fora de casa como critério de desempate, encaramos os pênaltis mais uma vez. E Dida, outra vez, salvou o time que venceu por 4x1 nos pênaltis.

Finais 

Mas ainda faltava enfrentar o Sporting Cristal que vinha de uma ótima campanha depois de bater Velez, golear o Bolivar por 3x0 e o Racing por 4x1. 

O primeiro jogo, no Peru, ficou em 0 x 0. Deixando Belo Horizonte por conta da decisão. Então, em 13 de Agosto de 1997 caravanas de todos os cantos de Minas Gerais e até de outros estados seguiram para Belo Horizonte lotando o estádio eram 95.472 pagantes e 102.000 presentes.

Fazia frio na capital mineira. 

A torcida fazia a festa na arquibancada ansiosa pra que o time definisse rapidamente o jogo. O primeiro tempo, tenso, terminou em 0 x 0. No segundo tempo o treinador uruguaio substituiu Prince por Alfredo tentando mobilizar melhor seu meio-campo. Depois foi a vez de Paulo Autuori tirar Ricardinho e colocar Da Silva. Passaram-se dois minutos até a segunda substituição peruana, saiu Erick Torres e entrou Roger. Passados três minutos, Elivélton pega o rebote de um escanteio e manda direto pras redes libertando tantos gritos presos em milhões de gargantas. 

Os adversários até tentaram o empate ou a virada, com uma terceira substituição: Luís Alberto deu a vaga ao Ismael, mas nada adiantou. No finalzinho da partida Dida fez uma brilhante defesa depois de uma batida de falta do Sporting Cristal, pegando o rebote da mesma. O grito de bi-campeão entalado, desde de 77, na garganta celeste finalmente pôde foi libertado por todas as cidades mineiras. Quem não se lembra do “Ah! Eu to Ma-lu-cô!!” da torcida? 

Nosso time foi: Dida, Vitor, Gelson, Gottardo, Nonato, Fabinho, Ricardinho (Da Silva), Donizete, Palhinha, Marcelo e Elivélton. 

O Sporting Cristal: Julio Cesar, Jorge Soto, Manuel Marengo, Marcelo Asteggiano, Erick Torres (Roger), Pedro Garay, Nolberto Solano, Julio Rivera, Prince (Alfredo), Julinho e Luis Alberto (Ismael) Bonnet. 

Palhinha e Eliveton deram entrevistas marcando o puxão de orelha de Autuori, no vestiário do estádio peruano, do Nacional, como o ponto de partida para a conquista da taça, Palhinha acrescenta “Meu gol contra o Grêmio deu a pista que estávamos vivos”. A vaga nas oitavas-de-final do ano seguinte já estava garantida com aquele título. Tornando a conquista apenas o início de outra página. 


O capitão Wilson Gottardo levanta a taça de campeão

Libertadores 97 em números: 

Jogos: 14 
Derrotas: 6 
Vitórias: 7 
Empate: 1 
Gols feitos: 15 
Gols sofridos: 12 

*os gols das decisões em pênaltis não foram contabilizados 

Originalmente postado em Blog do Cruzeirense.